Cena que me ocorreu hoje, do filme da minha vida:
Depois de anos, eu volto. Ligo. Marco de encontrar. A casa é linda. Enorme, do jeito que eu sempre imaginei para nós dois. Branca, quintal, cachorro. A sala está cheia de fotografias e pinturas nas paredes. Ele me deixa esperando sentada no sofá e some, diz que vai procurar alguma coisa lá dentro. Fico quieta, como da primeira vez. Sentada no sofá, com as mãos nos joelhos, sacudindo um pouco as pernas. Ele está demorando. Acabo me perdendo nas fotos. Nos quadros. No telefone, que já não tem mais um bloquinho e uma caneta sem tampa ao lado. Procuro pelas páginas amarelas, mas talvez elas já não existam mais. Fico alí, olhando as coisas todas que ele conseguiu nesses anos. Olho e continuo olhando. Com os olhos cheios d'água, resolvo levantar. Caminho em direção à porta sem fazer barulho e vou embora. Ganho a rua e as lágrimas começam a escorrer. Numa rua deserta como a maioria das ruas de Curitiba, o dia está ameno. Árvores com folhas verdes e sol de outono. Sigo andando e chorando. A câmera me filma de frente, em close que permite ver a paisagem atrás de mim. A música está tocando desde que ele entrou para procurar sabe-se lá o que.
Sobem os créditos enquanto a música toca e eu continuo caminhando e chorando.