Friday, 30 December 2011

Você

Você foi embora. Seu copo de café ainda está em cima da mesa, do jeito que você deixou, com dois dedos de líquido ainda por beber e uma camada fina de açúcar no fundo. Eu estava sentada do lado de fora, com meu copo, num dia particularmente calado e nebuloso, fazia um pouco de frio e já esperávamos a tempestade há dois dias. Eu não disse quase nada o dia inteiro. Nem você. Nos esbarrávamos pela casa e nos olhávamos nos olhos. Aquilo dizia muito mais coisas do que qualquer diálogo de horas. Ainda assim, não esperava que você fosse embora.
Na tentativa de parar de fumar, eu sempre evitava essas pausas para o café, mas aquele dia em particular estava bastante convidativo. Como ainda sobrara alguns cigarros no maço que eu pretendia que fosse o último, passei o café e te enchi um copo. Você entendeu, é claro, que eu iria sentar no quintal e que você deveria fazer o mesmo. Nos compreendíamos muito bem.
Enrolada naquela xale, lenço, pashimina – eu nunca sei o nome daquela coisa –, eu degustava a vida e sorvia a tempestade. Fumava o tempo e esperava o cigarro. Não era um dia ruim, apenas um daqueles estranhos dias de dezembro em que a vida parece perder uma essência anterior à própria vida e se apresenta apenas como existência, sem êxtase, sem orgasmo, sem tesão. A vida, tem dias, pode ser muito frígida.
O que importa é que você se levantou depois de uns dez minutos. Não me olhou nos olhos dessa vez. Pensei que fosse na cozinha pegar a garrafa pra deixar em cima da mesa, pensei que fosse pegar o açúcar, pensei que fosse trazer o bolo. Mas você só levantou e sai andando. Entrou em casa e não vi o que fez. Não estava prestando atenção. Fiquei ainda algum tempo incalculável olhando pro céu e vendo as nuvens passando, sendo carregadas. Quando resolvi que precisava de um pouco de música para me despertar daquela letargia, te procurei perto do toca-discos e você não estava lá. Bebel Gilberto começou a cantar e eu, por aquele instante, quis te abraçar e dançar. Chamei seu nome, mas não te procurei. Você não respondeu, então deixei pra lá.
De vez em quando ainda sento naquela mesa e fico vendo o seu copo, que nunca quis, ou consegui, tirar dali. Já que meu peito não deixou escolhas, vou esperar você voltar. Você ficou me devendo uma dança...