Desde criança,
quando os sonhos ainda não se haviam desfeito,
quando as férias pareciam longas,
quando os problemas se resumiam ao sabor do sorvete,
desde criança eu queria ser marinheira.
Eu sentava na Praça XV,
esperava pacientemente as barcas
com meu pai me olhando com carinho
e pensando em como eu estava crescendo.
E eu ficava ali, com os pequenos olhos distraídos,
comendo pipoca com leite condensado,
sujando o vestido,
rindo dos pombos.
Eu ficava esperando as barcas
e eu tinha só cinco anos.
Eu sorria para as moças,
e as moças me sorriam e abanavam suas mãos,
eu ficava feliz e retribuía o aceno.
Meu pai gostava de me ver assim tão distraída.
Alisava meu cabelo entre um trago e outro
do seu cigarro de filtro branco e
me dizia “pequena, um dia você será uma grande
marinheira”
e eu gritava e jogava toda a pipoca para o alto.
Ele me ajudava a lavar as mãos
quando entravamos na estação,
pois quase sempre elas ficavam
meladas de leite condensado.
Quando nos sentávamos,
eu ficava com o rosto ao vento, na janela da barca,
assistindo à água que respingava
e me imaginando vestida de branco dizendo ‘SIM CAPITÃO!’
e eu ria... eu ria o caminho todo.
Eu ficava ali do lado do meu pai rindo,
ele sem entender muita coisa,
mas afinal, o que se tem para entender sobre crianças?
Eu só tinha cinco anos.
Eu chegava em casa e meu pai me trazia
um copo de leite.
Eu bebia tudo de uma vez
- ele me esperava terminar -
e quando eu terminava,
ele levava meu copo até a cozinha e o lavava.
Eu ficava no quarto cantando algumas músicas
que havia aprendido com meu avô;
mas meu avô não queria que eu fosse marinheira,
então ele só me ensinava suas músicas do exército.
Meu avô não gostava dos marinheiros,
mas eu sim e,
sempre que o encontrava,
o contava sobre meu novo uniforme imaginário
ou sobre como fora difícil subir a âncora da última vez,
e ele ria.
Afinal, acho que todos ríamos demais.
Eu ficava sentada na Praça XV esperando as barcas
e vendo os marinheiros de verdade passarem:
eu queria ser como eles.
Queria seus chapéus e seus sapatos e
suas bolsas e suas patentes, e
mais que isso,
queria sua liberdade.
Meu pai ficava me assistindo divagar
e me dizia ‘princesa, você será a maior marinheira do mundo’.
Eu acreditava e ria,
jogava toda a pipoca para o alto e ria.